
Uma Visão Psicossomática das Dores de Cabeça
As dores de cabeça estão entre os acometimentos psicossomáticos mais comuns de nosso cotidiano. A facilidade de tomar analgésicos faz com que se tornem suportáveis. Apesar de o modo como o paciente vive e se relaciona ser um disparador de crises, nem sempre os pacientes são encaminhados pelo médico ao acompanhamento psicoterapêutico. Concomitantemente, muitos psicólogos se sentem inseguros de abordar o sofrimento psicossomático por não terem uma visão aprofundada da psicossomática, já que nas faculdades de psicologia pouco se fala sobre psicossomática.
As dores de cabeça e a enxaqueca
Existem inúmeros tipos de dores de cabeça (cefaleias) que podem ter as mais variadas causas, como tensão, estresse, ansiedade, fome, insônia, gripe, desidratação, sinusite etc. Em relação à forma como as dores de cabeça se manifestam, existem variáveis, como pressão na cabeça, pulsátil, fisgada ou facada, em salvas (dor súbita) e dor surda.
A enxaqueca é um tipo de cefaleia que se caracteriza por uma dor intensa e persistente, podendo durar de poucas horas a dias, sendo extremamente incapacitante. A enxaqueca pode ser acompanhada por náuseas, vômitos, sensibilidade à luz, formigamentos, tonturas, aura (percepção visual de flashes, pontos ou linhas luminosas, zumbidos e distorção de sons).
As dores de cabeça e enxaqueca são psicossomáticas?
Todas as doenças e transtornos são, em maior ou menor grau, psicossomáticas. O processo de adoecimento tende a espelhar o modo como vivemos, percebemos o mundo, reagimos a situações, vivenciamos nossos relacionamentos e emoções, ou seja, envolvem o indivíduo por inteiro. Apesar de compreender esse aspecto psicossomático, devemos primeiro descartar possibilidades de doenças mais graves que podem gerar dores de cabeça e enxaqueca – como tumores e alterações hormonais, por exemplo.
Toda doença psicossomática deve ser tratada em equipe multidisciplinar.
Psicossomática e Medicina Chinesa
Existem muitas perspectivas ou formas de abordar as relações corpo e psique. A medicina chinesa responde bem às questões psicossomáticas e se aproxima fortemente do pensamento de Jung. Isso porque a medicina chinesa compreende o indivíduo como um todo. A medicina chinesa não separa “corpo e psique”, pois tratar o corpo reflete na psique. No ocidente temos uma visão da medicina chinesa associada mais à acupuntura, contudo, esta é apenas uma das possibilidades de tratamento. Outras usadas são práticas respiratórias e meditativas, práticas físicas, dietoterapia, fitoterapia.
O adoecimento aponta tanto relações internas (orgânicas e psíquicas) quanto externas – como relacionamentos sociais e afetivos, alimentação, clima, etc. Há algum tempo, em outro texto, começamos a esboçar o Zang Fu (o sistema de órgãos e vísceras) para entendermos um pouco da visão sistêmica da medicina chinesa acerca do corpo. O primeiro passo é ter em mente que a energia (biopsíquica), o sopro ou “qi” associado a cada órgão chega a todo o corpo por meio da rede de canais, nos quais se localizam os pontos de acupuntura.
Cada órgão denso (coração, baço, pulmão, rim e fígado) alberga um “espírito”. Estes correspondem aos aspectos que afetam nosso corpo e psique e nos caracterizam como humanos, em distinção dos animais, controlando nossos comportamentos e fisiologia. Assim, no texto, “espírito” é essa essência qualitativa presente no corpo, cujo movimento indica a compreensão chinesa da psique. Isso é importante porque de acordo com a localização da dor notaremos a relação com os órgãos e espíritos a eles associado; e isso permite que tenhamos algumas “pistas” para pensar as formas de trabalhar com o paciente.
É importante ressaltar que o diagnóstico na medicina chinesa é uma arte extremamente complexa que envolve avaliação da língua, pulsologia, anamnese, observação/inspeção, olfação, apalpação, dentre outros. O “vamos fazer” não é um diagnóstico, mas reunir algumas informações básicas que o psicólogo possa pensar a dor de cabeça de seu paciente e ver as diferentes possibilidades de compreensão e assim, buscar mais informações.
As dores de cabeça na medicina chinesa
As dores de cabeça podem ser de tipos diferentes e apresentar características diferentes que envolveriam a compreensão de agentes patogênicos, a compreensão da dor – se é por deficiência (dor leve, que melhora com o descanso, que é mais persistente, aparece ou desaparece) ou do excesso (dor intensa, que não melhora com o descanso, tende a ser mais curta, e sem melhora durante a crise). Como nosso texto é voltado a psicólogos, não vamos entrar nessa discussão, enfatizando sobretudo o tipo de dor pela localização.

As dores de cabeça que ocorrem à região occipital correspondem ao canal urinário chamado Tai Yang e ao canal da bexiga, acoplado aos rins. Dor geralmente acompanhada de rigidez na região cervical, sensação de vazio na cabeça.
O canal da bexiga, acoplado ao rim, é um canal regido pelo movimento da água. Apesar de não termos outros elementos de diagnóstico, considerando apenas a dor de cabeça podemos supor um padrão de deficiência no rim. Essa deficiência será expressa em outras questões somáticas, mas, no aspecto psicológico é muito importante observarmos as questões relacionadas à necessidade de estar seguro, confiança, dinamismo, controle (tudo estar bem), relação ambígua com o perigo. HICKS, HICKS e MOLE(2021) apontam que essas questões podem se desdobrar expressando a amplitude do padrão de desequilíbrio da água:
- Correr riscos/falar bravatas – Temer o pior/excessivamente cauteloso;
- Desconfiado – Excessivamente confiante
- Intimidador – Transmitir tranquilidade (a aparência de tranquilidade, mesmo sem estar)
- Vontade forte – Apático
- Agitação – Paralisia (ou muito hesitante).
Esses opostos indicam as possibilidades de como o indivíduo pode se relacionar com o medo, ou seja, identificando-se com o mesmo ou negando e reprimindo sua existência. O espírito associado ao rim é chamado de Zhi, a vontade, força de vontade ou vontade de vida. O Zhi se expressa tanto como o instinto de sobrevivência como a força que impulsiona o indivíduo à vida. O medo é uma emoção contrária ao impulso que, em situações equilibradas, a relação do Zhi e o medo produzem a virtude da sabedoria, produzindo a vontade e firmeza de quem sabe quem é.
Entretanto, em desequilíbrio, isto é, em excesso ou reprimido, o medo enfraquece do Zhi, afetando a vontade de vida, gerando deficiência no rim. Muitos pacientes, com deficiência do rim, apresentam os sinais de depressão, esvaziamento da vontade, aparentando colapso.
A psicoterapia auxiliaria o paciente a identificar os fatores e trabalhar os que potencializam o medo. Estes podem ser relacionados à sua história através de seus complexos, de seus mecanismos de defesa que impedem de se abrir ao novo, da mesma forma, relacionamentos que podem fomentar o medo e impedir que o paciente compreenda novas perspectivas de vida. Trabalhar a construção de possibilidades e metas podem auxiliar no processo, visando engajamento e motivação.

Existem dois tipos de dores de cabeça que possuem diferenças na localização e na manifestação, mas que possuem semelhanças por regidos pelo movimento da madeira. São dores de cabeça extremamente comuns.
A dor de cabeça Shao Yang ocorre na região temporal, relacionada ao canal Vesícula Biliar, cuja dor normalmente é aguda e do tipo latejante, podendo irradiar para o olho e nuca (no trajeto do canal da vesícula – podendo ser acompanhada por náuseas e vômitos.

A vesícula biliar é uma víscera acoplada ao fígado, que é um órgão também regido pelo movimento da madeira. Por isso, vamos falar da dor de cabeça Jue Yin (formado pelos canais do fígado e pericárdio), que é caracterizada por uma dor no topo da cabeça, surda, que melhora quando o paciente deita. Diferente das demais dores, as quais se relacionam com a trajetória dos canais que passam pela cabeça, o canal Jue Yin não passa pela cabeça. Ocorre que o ponto Bahui (Vg20) recebe a energia yang de todos canais yang (dos acoplados), assim a região responde a ascensão do yang do fígado que se eleva ao topo da cabeça.
Em todo caso, o padrão psicológico que deveríamos observar frente a pessoas que apresentam dores do padrão Shao Yang e Jue Yin seriam as relações que estabelecem com áreas como: limites, poder, ser correto, crescimento pessoal e desenvolvimento. HICKS, HICKS e MOLE(2021) indicam o padrão de desequilíbrio na madeira pode oscilar em comportamentos como:
- Assertivo e direto(contundente, agressivo) – Passivo e indireto (passivo-agressivo, às vezes deprimido)
- Busca por justiça (inquietos, aguerridos) – Apáticos
- Rígido (corpo tensionado e mente inflexível)- Excessivamente flexível(dóceis, corpo sem tônus, incapaz de posicionamento firme).
- Excessivamente organizado(planejamento rígido, impacientes) – Desorganizados (Resignados, desesperançosos)
- Rebeldes e desafiantes (luta por poder) – Excessivamente obedientes (complacentes, podendo ter um forte sentido de regras, limites)
Esses padrões indicam a possibilidade de lidar com a raiva. Acho importante entendermos a dimensão que medicina chinesa dá à raiva em seu aspecto equilibrado e no desequilibrado. Segundo LA VALLÉE
A raiva corresponde ao Fígado. Quando expressa a normalidade do elemento Madeira, ela é a impetuosidade própria da vida, na potência dos começos; a força que desencadeia os movimentos e os empurra até o ponto extremo, o impulso para a elevação, a impetuosidade que faz ir em frente com uma coragem marcial. Ela é análoga à força do vento que sopra ou à planta que perfura o chão ainda gelado da primavera, à violência do nascimento que expulsa o ser para a luz, e sustenta o seu crescimento, ou ainda ao esforço da tensão aos músculos. (LA VALLÉE, 2019, p103)
Quando a raiva está em equilíbrio é uma força expansiva fundamental. É força que possibilita transformações. O Fígado para a medicina chinesa é um órgão marcado pela experiência emocional. Os espíritos que o habitam, os Hun “permitem ao ser humano perceber, sentir, ter sentimentos e construir seus pensamentos, entender e racionar; eles são a inteligência, sensibilidade, espiritualidade, imaginação, sonhos devaneios e contemplação… eles desenvolvem conhecimento e consciência”(id. p91). Assim, quando falamos do Hun nos referimos à capacidade criativa e simbólica que, quando associada à força de transformação presente “raiva” possibilitam viver realizações e, em nossa perspectiva mais ampla, o processo de individuação.
Quando em desequilíbrio,
A raiva patológica é a perversão do movimento da Madeira. Quando ele rompe as amarras, deixa as suas raízes, perde o controle, é a exaltação, a fúria enlouquecida, a raiva irracional.
Ou ainda, uma raiva contida bloqueia os sopros do Fígado, impede as circulações, causando explosões esporádicas, de uma violência à altura do bloqueio e das forças do indivíduo. Ela rói pouco a pouco o sangue e ataca o yin pelo calor decorrente da obstrução após o esgotamento.
Na patologia, a raiva desequilibra os sopros do Fígado, aumentando o yang e prejudicando o yin, provocando sintomas físicos, tais como hipertensão, ao lado da manifestação psicológica. Mas a raiva pode também surgir de um desequilíbrio do Fígado; por exemplo, o sangue empobrecido pelas menstruações torna a mulher irritável, ou diminuído por outras razões, gera ansiedade e ciúme.
A raiva excita o yang, faz subir demasiado alto e demasiado forte os sopros do Fígado, levando massivamente o sangue que não pode mais armazenar. A contracorrente segue o meridiano do Fígado e o da Vesícula Biliar, até o topo da cabeça, pressionando os vasos capilares do olho e as circulações no cérebro. No caminho, Estômago e Baço são desorganizados e a digestão perturbada; o Pulmão tem seu movimento de descida entravado e o Coração ainda mais perturbado. (Id. p 103)
A raiva patológica é vivenciada nos excessos e na deficiência como descrito acima na relação com limite, poder. A raiva contida ou exacerbada afeta os hun prejudicando e limitando suas funções. O indivíduo é podado. Como visto na citação acima, além das dores de cabeça, outros sistemas são afetados.
A diferenciação da dor de cabeça Jue Yin e da Shao Yang não é apenas uma questão de localização. Na medicina chinesa, o Fígado é o órgão associado ao planejamento e a vesícula biliar é associada à tomada de decisões. Essa perspectiva é importante pois servirá de referência para diferenciar com o paciente em consultório.
A psicoterapia auxiliaria no tratamento da dor de cabeça, auxiliando o paciente na compreensão dos fatores que impedem o seu desenvolvimento, cujas raízes podem ser históricas (complexos) ou ambientais(família, trabalho etc..), compreendendo os padrões defensivos e compensatórios da raiva presentes nos excessos na assertividade, organização, planejamento, rigidez e agressividade ou na ausência de posicionamento, resignação, frustração, apatia e subserviência, que evitam que o paciente tenha plena consciência da estagnação de sua vida. No caso da dor tipo Shao Yang, a psicoterapia auxilia na tomada de decisões, que possibilitam as mudanças necessárias que formam o pano de fundo que sustentam a conjuntura que provocam as dor.
Auxiliar o paciente a compreender que suas escolhas e ações refletem seu modo de vida, e assim exige uma atenção à sua totalidade. É importante observar e trabalhar os padrões de sono, alimentação e atividades físicas, assim como as metas e objetivos do paciente. De acordo com a situação geral do paciente, atividades que auxiliem a integrar o corpo e os movimentos adequados yoga, natação, são exemplos de atividades interessantes para lidar com os excessos, artes marciais seriam interessante para tonificar e auxiliar nos pacientes que apresentam padrão de deficiência. Assim, o mesmo pode ser aplicado a padrões alimentares e consumo de substâncias.

As dores de cabeça que ocorrem na região frontal correspondem ao canal Yang Ming. Normalmente associada a uma sensação de peso na cabeça, atordoamento, falta de concentração e dor no fundo dos olhos. A região da dor está relacionada especialmente ao canal do estômago.
O estômago é uma víscera acoplada ao baço regido pelo movimento da Terra. Segundo Hicks, Hicks, Mole (2021) os aspectos psicológicos que devem ser observados são relacionados a “sentir-se apoiado”, nutrir-se, sentir-se estável e centrado, ter clareza mental e ser compreendido. Isso pode ser expresso em possibilidades opostas que podem ser percebidas como:
- Sufocante/maternal (excesso de cuidado com os outros) – Não protetor, não apoiador (incapaz de dar suporte)
- Carência (busca por atenção) – Repressão das necessidades
- Dependência excessiva(perdendo-se no outro) – Independência excessiva (incapaz de se vincular)
- Não centrado/disperso(sente-se vazio, buscando na comida preenchimento) – Sem ação e pesado (sentimento de estar travado)
- Dependência excessiva da segurança do lar (falta de estabilidade, mudança constante) – Incapacidade de fixar raízes( impossibilidade de sentir-se equilibrado).
Os opostos acima falam de dois sentimentos que afetam estômago, acoplado ao baço, que são: a preocupação ou ansiedade e a solicitude. O movimento Terra é o movimento central, de equilíbrio, responsável pelas funções de nutrição, vinculação e segurança e, por consequência da solidariedade e empatia. O espírito associado é o Yi, traduzido como propósito ou intenção, manifestado na firmeza e segurança naquilo que o indivíduo se propõe, como por exemplo, a capacidade de pensar claramente ou de estudar, manter-se no foco.
A preocupação/ansiedade geram dúvida, uma vastidão de pensamentos que tiram o foco, gerando insegurança e instabilidade. De modo muito semelhante, com a solicitude o indivíduo tende a focar-se nas necessidades do outro e pode perder-se de si mesmo. Tudo isso pode gerar não só as dores de cabeça, como complicações que afetam o sistema digestivo como um todo.
Pela psicoterapia junguiana, notamos uma forte relação entre o desequilíbrio do movimento Terra com o complexo materno negativo. O processo psicoterapêutico auxiliaria na percepção tanto de sua relação com o materno que envolve tanto compreender as relações históricas com a própria mãe, mas que influencia na percepção de cuidado de si e com os outros, as relações de nutrição (de alimentação e simbólica), a capacidade de enfrentar as adversidades. Para além do complexo materno, a psicoterapia auxiliaria na construção de estratégias de autopercepção e fortalecimento do ego para manter-se em relação saudável consigo mesmo e com os outros.
Considerações finais
Os apontamentos para pensarmos as dores de cabeça pela aproximação da psicossomática e medicina chinesa exige muito mais aprofundamento. No início do texto, eu falei de um trabalho multidisciplinar, gostaria de ressaltar que seria excelente se nessa equipe houvesse um acupunturista. Muitos pacientes cansam de tomar medicações, mas o trabalho do acupunturista (que pode trabalhar microssistemas como da auriculoterapia sem agulha) pode ser extremamente proveitoso para o paciente e potencializar o resultado do tratamento.
Referências
HICKS, A.; HICKS, J.; MOLE, P. Acupuntura constitucional dos cinco elementos. São
Paulo: Roca, 2021.
VALLÉE, E.R. LA, 101 Conceitos-Chave de Medicina Chinesa, São Paulo: Inserir, 2019
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